1. Introdução

A recente publicação da Diretriz Nacional para o Diagnóstico e Tratamento do Transtorno do Espectro Autista (TEA) pelo Ministério da Saúde (2025) representa um avanço significativo na consolidação de políticas públicas baseadas em evidências científicas. O documento orienta as equipes multiprofissionais do Sistema Único de Saúde (SUS) a oferecerem cuidado integral e centrado na pessoa e em sua família.

Contudo, ao lado das conquistas científicas e da padronização dos protocolos clínicos, emerge uma questão fundamental: como compreender o autismo sem reduzir o sujeito a um diagnóstico?

A Psicanálise, desde Freud, propõe justamente o inverso. escutar o sujeito do inconsciente, aquele que se revela para além das classificações médicas e das descrições comportamentais.

2. O autismo na perspectiva psicanalítica

Para a Psicanálise, o autismo não é um déficit, mas uma forma singular de relação com o outro e com o mundo.

O sintoma, longe de ser apenas um erro de funcionamento, é uma expressão simbólica do inconsciente, um modo de o sujeito se proteger de um real excessivo.

Freud (1917) já advertia que todo sintoma contém um sentido, mesmo quando não pode ser imediatamente traduzido em palavras.

Lacan, posteriormente, destacou que o sujeito autista constrói uma barreira protetora contra o gozo do Outro, organizando seu mundo segundo uma lógica própria.

Assim, o silêncio, o retraimento e a repetição não devem ser entendidos como ausência, mas como formas alternativas de presença.

A teoria keppeana, de Norberto Keppe, oferece um complemento valioso a essa leitura: o ser humano sofre quando se afasta de sua essência.

A chamada inversão da consciência, conceito central de Keppe, designa o movimento pelo qual o indivíduo nega sua natureza amorosa, sensível e criadora, sucumbindo a uma realidade artificialmente racionalizada.

Sob essa ótica, o autismo pode ser interpretado como uma defesa psíquica diante de um ambiente hiperintelectualizado e afetivamente empobrecido, onde a alma busca refúgio no isolamento.

A intervenção, num enfoque keppeano, talvez buscasse reduzir descompassos, fortalecer a consciência, ajudar a pessoa a "ver" o que está por trás de suas dificuldades, a "desinverter" algum padrão emocional ou cognitivo que está em resistência.

3. A diretriz e o cuidado integral

A Diretriz Nacional de 2025 reconhece o papel fundamental da família e dos contextos de vida, afirmando:

"O cuidado da pessoa com TEA exige da família extensos e permanentes períodos de dedicação, sendo necessário ofertar também aos pais e cuidadores espaços de escuta e acolhimento." (Ministério da Saúde, 2025)

Essa formulação se aproxima da ética psicanalítica, que vê na escuta o primeiro passo do tratamento.

A escuta não apenas coleta informações, ela reconhece o sujeito como portador de sentido.

O que a diretriz nomeia como "reabilitação" pode ser ampliado, na perspectiva psicanalítica, para um processo de reconexão com o desejo e com a subjetividade.

A psicanálise também adverte para o perigo da hiperdiagnose e da padronização terapêutica.

Se o tratamento se limitar a treinar comportamentos, corre-se o risco de sufocar justamente o que há de mais humano no autismo: a singularidade.

4. Convergências e desafios

Há convergências notáveis entre a diretriz e a visão psicanalítica: ambas reconhecem o papel da família, a importância da escuta e a necessidade de um cuidado integral.

Contudo, a Psicanálise acrescenta um horizonte mais amplo: o de ouvir o sujeito onde a ciência vê apenas o sintoma.

A teoria keppeana amplia esse entendimento ao propor que o verdadeiro tratamento não é apenas clínico, mas ontológico, é o "despertar do ser", como define Keppe.

Tratar o autismo, portanto, não é apenas desenvolver habilidades funcionais, mas possibilitar que o sujeito encontre um lugar de expressão no mundo, sem ser violentado por expectativas de normalidade.

5. Conclusão

A nova diretriz nacional sobre o TEA reafirma o compromisso do Estado com a inclusão e o cuidado.

Cabe à Psicanálise, e a profissionais comprometidos com o humano, garantir que esse cuidado não se restrinja ao comportamento observável, mas alcance o invisível: o inconsciente, o afeto e o desejo.

Ao integrar a ciência das evidências com a ciência da alma, caminhamos para um modelo de cuidado verdadeiramente integral, onde cada pessoa, autista ou não, possa ser escutada em sua singularidade e essência.

Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Diretrizes de Atenção à Reabilitação da Pessoa com Transtornos do Espectro do Autismo (TEA). Brasília: MS, 2025.

FREUD, S. Introdução à Psicanálise. Obras Completas.

LACAN, J. O Seminário, Livro 3: As Psicoses. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

KEPPE, N. A Nova Física da Metafísica Desinvertida. São Paulo: Proton, 1983.

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