As ferramentas de Inteligência Artificial já são utilizadas por 56% dos professores das escolas do Brasil, segundo a pesquisa TALIS 2024 (Teaching and Learning International Survey), da OCDE. O percentual é maior que a média dos países participantes, de 36%. Se esses números indicarem que os docentes estão deixando para a tecnologia tarefas burocráticas e repetitivas, o impacto pode ser positivo à educação. Afinal, eles ganhariam tempo para o que realmente importa: o vínculo humano e o olhar sensível sobre os alunos.

Esse cenário, no entanto, não está isento de desafios. Se por um lado o contato com a IA estimula o educador a atualizar-se, refletir sobre suas práticas e desenvolver novas competências ? como o pensamento crítico digital ?, por outro há o risco de o professor delegar excessivamente à tecnologia o papel de pensar, criar e planejar. Isso pode empobrecer a prática pedagógica e gerar uma perda da autoria intelectual do educador.

Mais do que uma questão técnica, essa discussão toca um aspecto subjetivo e simbólico do ato de ensinar. Existe uma fronteira invisível e essencial, em que a psicanálise nos convida a refletir.

Mesmo na utilização meramente instrumental, algumas luzes de alerta se acendem. Sugestões da IA não podem ser copiadas sem análise, já que existe o perigo de um ensino mecanizado, distante da realidade e da sensibilidade dos alunos.

A criatividade nasce do inconsciente: é a expressão simbólica dos nossos desejos, conflitos, sonhos e dores. Não é apenas pensar diferente, mas dar forma ao que nos habita. E isso, nenhuma máquina "sente".

Da mesma forma, a empatia não é um algoritmo. Ela emerge do encontro entre dois sujeitos que se escutam e se transformam. A IA pode simular compreensão, mas não se emociona, não é atravessada pela experiência humana.

Por isso, quando delegamos decisões importantes à tecnologia, é fundamental preservar o que nos torna únicos: a intuição, o desejo e a capacidade de atribuir sentido. A psicanálise nos lembra que a verdadeira sabedoria não está apenas em processar informações, mas em escutar o que se move dentro de nós. Esse território, nenhuma máquina pode acessar.

O uso crescente da tecnologia na educação também gera novas pressões emocionais para professores e alunos. Aos docentes, a exigência de dominar tecnologias pode provocar estresse, sensação de obsolescência e comparação constante.

Aos alunos, a hiperexposição digital pode aumentar a ansiedade, a distração e a dificuldade de concentração. A mediação humana, o olhar, o diálogo e a escuta continuam sendo essenciais para o equilíbrio emocional e o aprendizado significativo.

A IA é uma ferramenta poderosa, mas não substitui a inteligência emocional e relacional do professor. O grande desafio é equilibrar tecnologia e humanidade. A inteligência artificial pode apoiar o ensino, mas o afeto, a escuta e a presença do professor continuam sendo o que nenhuma máquina é capaz de reproduzir.

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